Revelado pela Veja, o documento entrou nos autos da investigação sobre o financiamento do filme
A Polícia Federal apreendeu nesta quinta-feira (10) um documento em que a empresária Karina Gama, responsável pela produtora do filme “Dark Horse”, relata pressões para delatar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A informação foi revelada pela revista Veja.

As três abordagens, segundo o documento
A declaração descreve contatos feitos em momentos distintos, durante o período em que a produtora já era alvo de apurações sobre o financiamento do filme. A empresária identifica apenas um dos interlocutores pelo nome.
O primeiro relato é de maio e envolve o empresário Fernando Sarney.
“No dia 20 de maio de 2026, fui procurada pelo Dr. Fernando Sarney. Não o atendi naquela oportunidade, tendo o contato efetivamente ocorrido apenas no dia 22 de maio de 2026, às 9h07. Durante a conversa, o Dr. Fernando Sarney ofereceu-me apoio jurídico e afirmou possuir grande proximidade com o Ministro Flávio Dino. Na mesma ocasião, declarou que poderia me apoiar caso eu tivesse interesse em realizar uma ‘delação premiada'”
Trecho da declaração juramentada
O segundo contato teria ocorrido em 27 de agosto, com um pastor evangélico que ela descreve como amigo de longa data. Segundo o documento, ele afirmou ter proximidade com integrantes do governo federal e com ministros do Supremo Tribunal Federal.
“Relatou-me que teria conversado com pessoas ligadas a essas autoridades e que lhe teriam solicitado que entrasse em contato comigo para transmitir a possibilidade de realização de uma ‘delação premiada’ […]. Segundo o interlocutor, se eu fizesse uma ‘delação premiada’, nada ocorreria comigo e eu não seria alvo de nenhuma operação policial”
Trecho da declaração juramentada
O terceiro episódio envolve um jornalista que, conforme o relato, já havia perguntado antes sobre uma possível delação. Na nova conversa, teria dito que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”.
A recusa e o receio registrado
Karina Gama afirma no documento que não teve interesse em nenhuma das propostas e que pretendia se defender pelos meios ordinários.
“Diante da abordagem, não manifestei interesse em realizar colaboração premiada, pois não identificava, e continuo não identificando, qualquer razão para adotar tal medida. Minha posição sempre foi a de esclarecer os fatos mediante a apresentação dos documentos pertinentes e o regular exercício do direito de defesa”
Trecho da declaração juramentada
No fecho do texto, ela registra o receio que a levou a procurar o cartório.
“Como não cometi nenhuma irregularidade e como não fiz nenhuma delação premiada, tenho receio de que alguma operação policial possa ser realizada contra a minha pessoa por retaliação política e não porque cometi algum ilícito”
Trecho da declaração juramentada
A operação foi deflagrada nesta quinta-feira, duas semanas depois do último contato descrito. O documento acabou apreendido pelos próprios investigadores.
O que o documento não prova
Este é o ponto que separa o relato de uma conclusão, e ele está no próprio texto assinado pela empresária. Ao falar da suposta proximidade entre Fernando Sarney e o ministro Flávio Dino, ela faz uma ressalva expressa:
“Não presenciei qualquer conversa entre ambos e não possuo elementos próprios que me permitam afirmar que o Ministro tivesse conhecimento, participação ou envolvimento nesse contato”
Trecho da declaração juramentada
A declaração é o relato de uma das partes e não vem acompanhada de provas das conversas descritas. Nada no documento comprova que os três interlocutores tenham agido a mando de autoridades, nem que tenha havido interferência na investigação conduzida pela Polícia Federal. As informações sobre eventuais vínculos com integrantes do governo e do Judiciário foram, conforme o próprio texto, repassadas pelos interlocutores à empresária.
O que disse Flávio Bolsonaro
Em agenda de campanha em Boa Vista, em Roraima, o senador Flávio Bolsonaro classificou a operação como “interferência política” e negou irregularidades na produção do filme.
“Não há absolutamente nada de errado com esse filme. Não tem um centavo de dinheiro público. Podem revirar do avesso de cima para baixo, trás para frente, um lado pro outro, de ponta cabeça, que não vai ter nada”
Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Ele também associou a ação ao calendário eleitoral: “É uma interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino sobre as eleições”.
O caso
A Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal, sem ordens de prisão, em parceria com a Controladoria-Geral da União. Autorizada pelo ministro Flávio Dino, a investigação apura o destino de R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil, organização ligada à produtora do longa. Frias é produtor executivo e roteirista de “Dark Horse” e também foi alvo da operação.
Nota da Redação: esta reportagem descreve o conteúdo de um documento apreendido pela Polícia Federal e divulgado inicialmente pela revista Veja, com apuração de Claudio Dantas. Trata-se do relato de uma das partes, sem comprovação das conversas nele descritas, e nenhuma das pessoas citadas foi acusada formalmente em razão desses contatos. Investigados são presumidos inocentes até decisão final. O espaço para manifestação está aberto a todos os citados e qualquer resposta será publicada com o mesmo destaque em r2noticias.com.br.
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