A apuração é conduzida em parceria com a CGU e investiga peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa
A Polícia Federal investiga se parte dos R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) foi usada para bancar “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Uma operação com 49 mandados foi deflagrada nesta quinta (10).

O que a operação apura
As buscas foram cumpridas em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará e no Distrito Federal, em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU). Não foram expedidos mandados de prisão. A investigação apura crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
O foco é o destino de R$ 2 milhões em emendas parlamentares que Mario Frias destinou ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização ligada à produtora do filme. Os recursos foram pagos em fevereiro e outubro de 2025. Segundo a PF, os valores repassados à organização teriam sido direcionados a empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação de que os serviços foram efetivamente prestados.
Os números do relatório
No documento entregue ao Supremo, a Polícia Federal aponta que R$ 645.400 saíram da conta do próprio deputado para a Go Up Entertainment em um intervalo inferior a dois meses, período em que o filme estava em produção. Os investigadores questionaram a capacidade financeira dele para fazer os repasses.
“Destaca-se, ainda, o envio de R$ 645.400,00 para a Go Up pelo próprio Deputado Federal Mario Frias, cujos rendimentos mensais alcançam a monta de R$ 44.008,52, colocando em questão o lastro financeiro para dar suporte às transferências feitas para a pessoa jurídica de Karina Gama no curto espaço de menos de sessenta dias”
Trecho do relatório da Polícia Federal
Outros R$ 750 mil teriam chegado à produtora por meio da NTT Brasil, empresa que, segundo a PF, integra o mesmo grupo empresarial da Dinâmica Editora e do Instituto Super Poder Educacional. As duas receberam R$ 700 mil do ICB por subcontratações. Somados, os repasses chegam a cerca de R$ 1,4 milhão.
A corporação também registra que a Go Up movimentou R$ 19.033.071 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025 e aponta o que chama de coincidência temporal: segundo informações públicas, as filmagens de “Dark Horse” ocorreram em São Paulo entre 20 de outubro e 7 de dezembro do mesmo ano.
“Circuito financeiro fechado”
A conclusão dos investigadores sobre esse fluxo de dinheiro está no relatório e é o trecho mais duro do documento.
“Essa circulação de recursos entre o parlamentar, a entidade executora, a empresa contratada e outra organização beneficiária não se compatibiliza com relações negociais independentes e economicamente justificadas. Ao contrário, evidencia um circuito financeiro fechado, característico de estruturas destinadas à circulação, fragmentação e reintrodução de valores entre integrantes de um mesmo núcleo de atuação”
Trecho do relatório da Polícia Federal
Sobre Karina Gama, o relatório afirma que ela teve “papel central na gestão das entidades responsáveis pela execução dos projetos financiados com recursos oriundos de emendas parlamentares, sendo identificada como um dos principais elos entre as organizações beneficiárias e os fornecedores contratados”.
O que Dino determinou
Além de autorizar as buscas, o ministro proibiu a Go Up Entertainment e a Go7 Assessoria de licitar e contratar com o poder público em “qualquer esfera federativa”. No caso do Instituto Conhecer Brasil, suspendeu “o exercício de qualquer atividade de natureza econômica ou financeira”. Frias ficou proibido de deixar o país e de manter contato com os demais investigados.
O que diz a defesa
Em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal em maio, quando já havia sido intimado a prestar esclarecimentos sobre a emenda, Mario Frias negou irregularidades e afirmou que os recursos tiveram finalidade social. A reportagem não localizou manifestação da produtora Go Up Entertainment nem de Karina Gama sobre a operação desta quinta-feira.
A operação chega no dia seguinte à decisão de Fachin
A Make Up foi deflagrada um dia depois de o presidente do STF, Edson Fachin, suspender as duas decisões que disputavam o comando da Polícia Federal: a do ministro André Mendonça, que havia afastado o diretor-geral Andrei Rodrigues, e a de Flávio Dino, que o havia reintegrado no dia seguinte. Andrei permanece no cargo e tem 48 horas para prestar esclarecimentos. Fachin justificou a intervenção afirmando que era preciso encerrar o conflito entre decisões monocráticas de ministros da mesma Corte.
Nota da Redação: esta reportagem reúne informações de decisões judiciais e de relatórios da Polícia Federal entregues ao Supremo Tribunal Federal, além de apurações publicadas por Claudio Dantas, CNN Brasil e Metrópoles. Investigados são presumidos inocentes até decisão final. O espaço para manifestação segue aberto e qualquer resposta será publicada com o mesmo destaque em r2noticias.com.br.
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