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Politíca

Ministro do STF acusa colega de direcionar investigações contra ele

Rafael Ramos
De Rafael Ramos
Publicado 03/09/2026
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Ministro do STF acusa colega de direcionar investigações contra ele
Ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça — Foto: Reprodução
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Moraes afirma que ele próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foram alvos direcionados “por razões pessoais e políticas”

O ministro Alexandre de Moraes afirma, em decisão encaminhada à presidência do Supremo Tribunal Federal, que investigações foram direcionadas contra ele próprio e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

O presidente do STF, Edson Fachin
O presidente do STF, Edson Fachin — Foto: Reprodução

O que diz a decisão

De acordo com o texto, relatórios de inteligência da Polícia Federal reúnem
elementos que apontariam “fortes indícios” de improbidade
administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na atuação de
André Mendonça como relator de dois processos: a Operação Sem
Desconto
, que apura fraudes em descontos de aposentadorias do INSS, e a
Operação Compliance Zero, ligada ao Banco Master.

As supostas irregularidades foram organizadas em três grupos:

  • Interferência na condução das investigações — Mendonça teria
    avançado sobre atribuições da Polícia Federal, atuando, segundo a decisão, como
    se fosse o “presidente do inquérito”.
  • Participação em tratativas de colaboração premiada —
    negociações que, pela regra, cabem ao Ministério Público, e que teriam sido
    conduzidas sem a Procuradoria-Geral da República.
  • Direcionamento de alvos — entre os citados estão o próprio
    Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo o texto,
    o direcionamento teria ocorrido “por razões pessoais e políticas”.

Moraes determinou que o conjunto de documentos fosse enviado a Fachin
“para as providências que entender necessárias” e que a
Procuradoria-Geral da República fosse comunicada.

O inquérito usado como base

A decisão foi tomada no âmbito do Inquérito 4.781, instaurado
em 2019 para investigar notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças e
outras infrações contra integrantes do Supremo, além de eventuais esquemas de
financiamento e disparo em massa de conteúdo falso nas redes sociais. É o
chamado inquérito das fake news, relatado pelo próprio Moraes.

O que Fachin determinou — e o que ele não decidiu

O presidente do Supremo, Edson Fachin, determinou que Alexandre de
Moraes
, André Mendonça, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal,
Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos por escrito no prazo
de cinco dias úteis.

O despacho, porém, trata de “eventuais vícios de forma” apontados
pela Procuradoria-Geral da República no caso do Banco Master, e determina a
coleta de informações antes de uma eventual análise pelo Plenário.
Fachin não chegou a apreciar o despacho de Moraes contra
Mendonça
— os dois movimentos correm em paralelo.

Como se chegou até aqui

O episódio é o terceiro capítulo de uma sequência iniciada há poucos dias. Em
1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com
mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a Alexandre de Moraes,
reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Entre elas estava a
pergunta escrita por Vorcaro em 15 de novembro de 2025 — “Acha que segunda
já tenho que estar fora?”
—, dois dias antes de ele ser preso pela PF.

Moraes nega ser o destinatário daquelas mensagens. Agora, é ele quem aciona a
presidência da Corte contra o colega que tornou o material público.

Procurado, o ministro André Mendonça não se manifestou até a
publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

O relatório de 50 páginas

O documento em que Moraes se apoia é um relatório de inteligência da
Polícia Federal de 50 páginas
, intitulado “Relatório de
Inteligência — Tópico de Análise de Cenário: Possível avanço sobre competência
do plenário e sobre prerrogativa de membro do Ministério Público”
.

Segundo o portal Claudio Dantas, o relatório passou a ser produzido a partir
do momento em que Mendonça assumiu a relatoria do caso no lugar do ministro Dias
Toffoli e determinou a troca de equipes e a blindagem da investigação contra
vazamentos — medida que afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, de
qualquer contato com o processo. Andrei Rodrigues é alvo de denúncia do próprio
Daniel Vorcaro, que atribui a ele o engavetamento de suas propostas de
colaboração premiada.

O que Moraes escreveu

No despacho, Moraes endossa manifestação do procurador-geral da República,
Paulo Gonet, e afirma que “o discurso do relator denota interesse no início
de investigação formal quanto a ele, tendo solicitado mais de uma vez que a
equipe de investigação encaminhasse alguma provocação a ele nesse
sentido”
.

Ele também compara o tratamento dado a diferentes ministros:
“O relator adota posturas muito diferentes diante de ilicitudes aparentes
relacionadas aos Ministros Dias Toffoli e Nunes Marques, em comparação com sua
percepção no que toca ao Ministro Alexandre de Moraes, apresentando discurso de
defesa quanto aos dois primeiros”
.

O que a PF aponta no documento

O relatório — que, segundo o portal Claudio Dantas, não está
assinado
— sustenta que Mendonça teria exercido “poderes típicos de
presidência da investigação, e não de supervisão judicial”
, com
“subordinação de atos de gestão administrativa da PF ao controle judicial,
acesso direto ao acervo probatório bruto e supressão técnica do delegado sobre o
produto analítico da unidade”
.

Um dos capítulos trata do que a corporação chama de “assimetria nos
prazos de apreciação”
de representações contra investigados, “a depender
da vinculação político-partidária”. O documento exibe um quadro comparativo:

Medida / investigadoRepresentaçãoDecisãoDias
MBA — Jaques Wagner08/06/202617/06/20269
MBA — Ciro Nogueira07/04/202606/05/202629
MBA — Cláudio Castro (1)11/03/202625/05/202675
MBA — Cláudio Castro (2)30/05/202615/07/202646
Cautelares — Inst. Previdência de Maceió09/06/2026pendente em 01/08/202653+
Quadro de prazos reproduzido no relatório de inteligência da Polícia Federal

O documento também afirma que o ministro teria mantido contato com defensores
de pretensos colaboradores. Segundo o texto, ele próprio mencionou em sessão
pública da Segunda Turma que soube do afastamento do delegado Guilherme
Silva
do comando da Operação Sem Desconto durante audiência com o
advogado Celso Vilardi.

Em um capítulo de “riscos consolidados”, a PF lista como de alta
probabilidade a nulidade de acordos de colaboração por participação do
juízo nas tratativas
— hipótese com vedação expressa no artigo 4º,
parágrafo 6º, da Lei nº 12.850/2013 —, além da revogação em bloco de custódias
por excesso de prazo e da invalidação de provas derivadas.

Do outro lado, 52 mensagens

No pedido que fez a Fachin para que Moraes seja investigado, André Mendonça
relacionou 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro
Alexandre de Moraes. Mendonça pediu ainda o afastamento cautelar do colega.

Nenhum dos dois ministros se manifestou publicamente sobre as
acusações do outro até a publicação desta atualização.

Quem falou com a Polícia Federal

Um ponto do documento chama atenção: segundo o portal Claudio Dantas, o
relatório foi montado a partir de relatos de servidores que integram a
própria equipe do ministro
no Supremo — ou seja, pessoas que trabalham
diretamente com Mendonça nas investigações.

É desses relatos que saem as passagens sobre o diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues. O texto afirma que, “em reuniões, o relator
afirmou reiteradamente entender que o diretor-geral mantém proximidade
inadequada com o presidente da República e que, por essa razão, não seria
possível confiar nele”
, e acrescenta: “até o momento não apontou fato
concreto que denote atuação irregular”
. Ainda segundo o documento, na
última reunião presencial o ministro disse dispor de procedimento em que se
avalia “eventual determinação de afastamento do diretor-geral”.

Avaliação semelhante teria sido feita sobre o procurador-geral da República.
O relatório registra que Mendonça citou a “proximidade com o ministro
Gilmar Mendes”
, o que tornaria Paulo Gonet “indigno de confiança, com
manifestação de que provavelmente o arrolará, ao menos como testemunha, em
processos derivados das operações”
.

A ressalva que o próprio documento faz

O relatório inclui um item de “Avaliação” em que aponta
“ausência do padrão que o próprio juízo exige”: “a imputação
apoia-se em proximidade institucional presumida, sem indicação de ato (…)
Dirige-se juízo de desconfiança a duas autoridades sem qualquer elemento
concreto”
.

Entre as conclusões críticas atribuídas à atuação do ministro, o texto lista
“direcionamento a resultado predeterminado, concepção ampla do poder
instrutório, desconfiança quanto a intermediários institucionais e cautela
ampliada em feitos de alta exposição”
.

Vale o registro: trata-se de relatório de inteligência, peça de
análise interna, e não de laudo pericial ou denúncia formal. O documento não
está assinado, e as conclusões nele contidas não foram submetidas ao
contraditório.

Nota da Redação

Esta reportagem tem caráter estritamente informativo e não expressa opinião deste veículo. As informações atribuídas a fontes e as declarações de terceiros são reproduzidas na forma como foram apresentadas à reportagem e não constituem afirmação da redação sobre os fatos.

Investigações, apurações e procedimentos citados não representam condenação. Em relação a todas as pessoas mencionadas vigora a presunção de inocência assegurada pelo art. 5º, LVII, da Constituição Federal, até que haja decisão judicial definitiva.

Direito de resposta. Toda pessoa física ou jurídica citada nesta matéria tem espaço assegurado para manifestação, retificação ou complementação, que será publicada com o mesmo destaque, nos termos da Lei nº 13.188/2015. Pedidos podem ser enviados para contato@r2noticias.com.br.

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